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Fri, 31 de July de 2009
Nota da redacção Lídia Coelho Salgueiro, professora catedrática aposentada do Departamento de Física da FCUL, faleceu no dia 24 de Julho de 2009. A info-Ciências digital apresenta as condolências aos seus familiares, amigos e colegas, publicando o seguinte artigo. Por Luísa Carvalho* Em homenagem a uma Cientista, a uma Professora e a uma Amiga. - É a Luisa? - Dra. Lídia? Como está? - Ai filha, que grande chatice, vim ao hospital e disseram-me que tinha que cá ficar por uns dias. Tenho uma infecção no intestino. - É grave? Perguntei eu. - Não sei, foram fazer-me um TAC. - Olhe já aí vou ver como está. - Ai filha não venha cá que não vale a pena. E passado pouco tempo lá estava eu. Já tinha o resultado do TAC e os filhos foram-me dizendo que o médico ainda pensou em operá-la, mas já tinha desistido da ideia. - Então Dra. Lídia o que disse o médico? - O médico olhe, não faz nada do que eu quero, pois o que ele devia era operar-me, e ao mesmo tempo piscou-me o olho. Pois esse piscar, encerrava uma mensagem que eu bem conhecia. Se a morte fosse por catálogo o que ela teria escolhido era uma falha cardíaca sem passar pela doença, ou neste caso, morrer na operação. Passados alguns dias foi para casa, e apagou-se lentamente. A sua morte foi serena e discreta como foi toda a sua vida. Morreu numa grande paz com ela própria e com o mundo. Foi no dia 24 de Julho, tal como a Avenida por onde ela passava quando em tempos, ainda vinha de carro para Lisboa. Só conhecia aquele caminho e a tragédia era quando ali havia obras. Era o dia inteiro às voltas para chegar à Escola Politécnica. A Escola Politécnica foi a sua casa. Ali trabalhou com o professor Manuel Valadares e ali iniciou a sua investigação em Física. Foi professora de todos quantos passaram pelo Departamento de Física até 1978, ano em que se aposentou por motivos de saúde. Quando ia ao médico era raro levarem-lhe dinheiro. Após os primeiros segundos, lá vinha a pergunta: não é a professora Lídia Salgueiro? Ah, bem me parecia, é que foi minha professora de Física Médica. E lá vinham as saudades e os elogios. Juntamente com o marido, o professor Gomes Ferreira, fundou o Centro de Estudos de Física, no Laboratório de Física da Faculdade de Ciências, do qual resultaram os actuais Centros de Física Atómica e Física Nuclear da Universidade de Lisboa. O marido foi o primeiro doutorando da professora Lídia Salgueiro, ao qual se seguiram mais quatro ao longo de vários anos. Pensava que ninguém a conhecia e que ninguém se recordava do que ela fazia. Acreditei neste facto até há bem pouco tempo. Foi uma completa surpresa, quando há quatro anos atrás fui ao Japão a uma conferência. Qual foi o meu espanto quando vários professores, daqueles que só conhecemos pelas iniciais nos artigos, me vieram cumprimentar e queriam saber notícias da L. Salgueiro. Fazia uns trabalhos com uma imaginação extraordinária e com um equipamento extremamente simples. Disseram que tinha sido uma honra para eles conhecerem uma discípula sua. Senti-me muito importante no meio destes cientistas japoneses. Um trecho escrito pelo seu próprio punho, num conjunto de apontamentos cuja leitura só foi autorizada após a sua morte - sobre a sua admissão à Universidade de Coimbra, em finais dos anos 30 - bem ilustra a sua filosofia de vida e procura intransigente da verdade: “O Dr... e o meu professor de história deram-me muitas cartas de recomendação para vários professores universitários de Coimbra; isso era muito usual nesse tempo. As cartas faziam as melhores referências a meu respeito, mas, como sempre detestei esse tipo de procedimento, foram todas direitinhas para o lixo.” A mensagem que me deixou foi a da simplicidade. Era desprovida de toda a vaidade e protagonismo. Sempre me deu esta grande lição. Tudo isto são glórias vãs, que morrem com o tempo. Porém aquilo que efectivamente é a nossa obra, essa não morre e perdura para sempre. E assim é.
Em homenagem a Helena Paveia (1945-2009)
Lídia Salgueiro (1917-2009)
Lídia Salgueiro (1917-2009)
Lídia Salgueiro (1917-2009)
Ruy E. Pinto (1924-2009)
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